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4 de dezembro de 2012

Aproxima-se sua libertação - Primeiro Domingo do Advento




Começamos o tempo litúrgico do advento. Representa para nós uma verdadeira oportunidade de graça. Chegar a compreendê-lo significa estar situados na medula da fé cristã. O ano litúrgico não é mera rememoração do passado. São os mistérios da vida do Senhor, os momentos decisivos de sua vida, gravando-se realmente em nós. Constitui nossa identidade mais verdadeira, a que Deus quer e espera de cada um. Para que isso se realize, Deus mesmo está vindo em pessoa até nós e nós devemos descobrir os sinais de sua presença e de sua ação para acolhê-lo e nos somar a ela. Deus não pode ser um desconhecido em sua casa. Nós não podemos permanecer alheios as suas iluminações e impulsos. Devemos deixar-nos amar. Cristo veio ao mundo em uma vinda histórica. Virá também ao fim dos tempos a verificar o que em nós está ou não, renovado e transformado. Mas o decisivo para nós é que está vindo e atuando aqui e agora em nós. E esta vinda é decisiva e transcendental, pois dela dependerá nossa salvação. Com Cristo, o fim e a plenitude se deslocaram ao centro da história, ao aqui e agora de cada homem. Ele se faz contemporâneo a todos e nos vai introduzindo já agora na plenitude dos tempos” (Gal 4,4), na última hora” (1 Jo 2,18). É o tempo do corpo místico, o da Igreja, o tempo de nossa grande transformação por meio da comunhão progressiva com a palavra evangélica e a Eucaristia. A vida cristã não é, nem poderia ser outra coisa que a nossa vida em Cristo, a reprodução e atualização em nós dos mistérios de sua vida, de seus mesmos sentimentos, para ser vivificados nele (Col 2,13), crucificados com ele (Gal 2,19), mortos nele (2 Cor 4,10), sepultados com ele no batismo (Col 2,12), ressuscitados com ele (Col 3,1), sentados nos céus com ele (Ef 2,5-6). Cristo é a vocação e destino fundamental do homem.
ESTEJAM SEMPRE ATENTOS! Vivemos um cristianismo adormecido em uma arcaica cultura da fé. Manifesta-se mediante costumes e hábitos que mais que fé é o reflexo cultural da fé. O imprescindível o cristocentrismo foi rebaixado a devoções populares que no santoral e nas práticas interessadas gozam de um predomínio. Na mentalidade corrente do povo, e isto é muito grave, Cristo não é, como deveria ser, o Mediador sempre em ato. Sören Kierkegaard disse atrevidamente: “A cristandade acabou com o cristianismo, sem cair na conta disso. Em conseqüência, se quer fazer algo terá que reinserir o cristianismo na cristandade”. Um botão de amostra: o Papa acaba de escrever que no portal do Presépio não havia nem asno nem boi. A notícia suscitou um alvoroço espetacular. Os meios de comunicação fizeram comentários fora de lugar. Neles, muitos afirmaram que estão tirando a fé. Outros asseguraram indignados que seguirão pondo a estes simpáticos animais em seus presépios. Não faltou quem acolheu a notícia com desdém irônico. Este fato reflete muitas coisas. O que é verdadeiramente fundamental e estrutural da fé? A pessoa de Cristo, sua mensagem e mistérios ocupam o centro da fé e das celebrações na vivência prática da liturgia, nas quais até os meninos e o povo mais singelo podem ver em primeiro plano de forma explícita e gozosa ao mesmo Cristo, sua mensagem e sua obra redentora?
Jesus nos diz no evangelho que despertemos do sono. É evidente que estamos adormecidos, sedimentados consciente ou inconscientemente em um passado histórico empobrecido que diluiu, quando não perdido, o original. Estamos hoje impressionados pela injustiça social. Cristo mesmo foi também despejado e marginalizado de nós, de sua casa. E até já esquecemos esta expulsão! Nossa autonomia nos parece normal. Mas o Advento significa ir ao encontro daquele que nos ama e que vem a nos buscar.
TEMPO DE ESPERANÇA: As leituras da palavra de Deus nos situam em um estado de busca e esperança. A primeira, do livro de Jeremias, constitui um oráculo de salvação. Jeremias profetiza que, depois da queda de Jerusalém e do exílio de Babilônia, Deus, do tronco ressecado da dinastia de Davi, fará brotar um descendente, um soberano que fará germinar a esperança e a salvação. São Pablo em sua carta aos Tessalonicenses, o primeiro escrito do cristianismo (ano 50 D.C.), fala do Senhor que instaurará os céus novos e a terra nova, pelo qual devemos nos preparar a sua vinda “transbordando de amor mútuo e de amor a todos”. Jesus, no evangelho, em uma visão apocalíptica, une o fim de Jerusalém e o fim do mundo e nos exorta à vigilância e à oração. Diz-nos que o fim está já no agora. Pelo qual, devemos estar acordados e vigilantes.
ENSINA-ME TEUS CAMINHOS! Cristo está vindo hoje a cada um de nós na luz do evangelho e dando-nos a vida na Eucaristia. O evangelho revela o que a Eucaristia contém. O pão oculta o que a palavra proclama. Evangelho e Eucaristia constituem hoje a presença real e a revelação luminosa de Jesus para nós. O grande drama do mundo cristão é a ignorância, o formalismo e o costume já tão envelhecido que perdeu o original. Isto representa um detrimento profundo para a fé. É um dos fatos mais lamentáveis da história da Igreja. Este drama tem como fundamento a ignorância e até ás vezes o desprezo do concílio Vaticano II, não só por parte do povo, mas também de não poucos guardiões da fé. Este concílio é o ato mais importante que a Igreja de todos os tempos celebrou em função da formação do povo cristão. Dois mil e quinhentos bispos de todo o mundo, durante quatro anos, refletiram no mais alto procedimento do magistério formal, sobre como tem que ser a fé de um cristão comprometido no mundo atual. Papas, bispos e pensadores o qualificaram como graça e inspiração do Espírito. Não só falou das realidades explícitas da fé, mas também, e isto é o original, de como tem que ser o modo de presença dos cristãos no mundo de hoje.
Junto aos bispos de todo o mundo colaboraram os melhores teólogos, pastores e catequistas da Igreja universal em uma valiosa colaboração como jamais existiu. Ante este evento excepcional, a maioria do povo vive ainda sem ter-se informado. O silêncio de muitos responsáveis e as ações daqueles que desvirtuaram os ensinamentos do Concilio movidos por interesses estranhos, representaram um lamentável bloqueio à vontade de Deus e constitui uma grave omissão. O Concílio Vaticano II é o melhor instrumento de atualização da fé, e representa uma oportunidade singular para quantos queiram vivê-la com autenticidade. Vincula a todos, especialmente aos responsáveis pela pastoral, com uma força moral de máxima exigência. Não oferecê-lo, não estudá-lo, constitui uma omissão gravíssima. É desprezo ao Espírito Santo e pode chegar a ser um impedimento, um verdadeiro bloqueio, para que muitos tenham a oportunidade de renovar sua fé.  No ano da fé, nenhuma oportunidade pode ser tão valiosa como deixar-se iluminar por este Magistério Extraordinário. Diz o salmo 24 na eucaristia de hoje: “Ensina-me teus caminhos, me instrua em teus caminhos, faz que caminhe com lealdade, ensina-me porque tu és meu Deus e Salvador”. Uma leitura atenta do concílio pode contribuir a fortalecer o mais valioso do homem: sua fé pessoal e comunitária, como adesão gozosa e alegre ao Jesus Cristo, o Senhor.
Pe. Rafael Vizcaino, LC

18 de novembro de 2012

Saibam que Ele está perto, à porta


 

DEIXAR-NOS JULGAR PELO EVANGELHO
33º Domingo Comum (B)

            O ano litúrgico está chegando a seu término e São Marcos nos fala hoje no evangelho do fim do mundo. Esta visão escatológica nos ajuda a refletir sobre o que na vida permanece ou perece. Neste contexto de desenlace e de destruição, aparece como figura central da cena o Senhor que retorna para reunir e salvar aos seus.
            O ano litúrgico gira em torno da páscoa de Cristo e é sua realização, ao vivo, na comunidade cristã, em cada um de nós. Celebrando os mistérios da vida do Senhor, de Advento a Pentecostes, e comungando com o evangelho e a Eucaristia, ele se vai formando em nós e vamos  nos identificando com Ele. Não são meras celebrações externas, nem tampouco memória de um passado que não retorna. Ele se faz nosso contemporâneo e, como Espírito vivificante, segue atuando no homem e a favor do homem. O que ontem ocorreu na história, hoje acontece dentro de nós. O Espírito grava ao vivo em nós a vida e sentimentos de Cristo, e vai transformando em seu corpo místico. O que o evangelho de hoje anuncia não é tanto o fim do mundo, como sua transformação.
            São Marcos escreve seu evangelho no contexto de acontecimentos tão dramáticos como a guerra judaica, a destruição do Templo de Jerusalém, a primeira perseguição dos cristãos em Roma. É um tempo de crise. Também nós vivemos hoje uma grave situação de emergência. É tão grave a crise que se perde o sentido do eterno, exalta-se o temporal como o único absoluto, ridicularizam-se os valores tradicionais, derruba-se o sistema econômico, aumenta terrivelmente o desemprego, proliferam os despejos de moradias, milhões de famílias carecem do mínimo para subsistir. Muitos convertem em ganho pessoal aquilo mesmo que está na origem do afundamento dos outros. Vivemos um sistema econômico neoliberal desumano e cruel que não coloca à pessoa, aos que mais sofrem, no centro.
      A incerteza, o fracasso, a solidão, a enfermidade, a insegurança econômica, política e psicológica, encerram a muitos em uma depressão sem saída. Asfixiados pelos problemas, muitos já não vêem o sentido de sua própria existência. Sentem-se jogados nela sem capacidade de pôr rumo para direção alguma. Poderiam confiar em Deus, mas a religiosidade de muitos está feita à carta e se fazem um deus a sua medida. Consciente ou inconscientemente, muitos, até crentes e cristãos, falam o que deve se fazer. Mas não permitem a atuar a Deus a sua maneira.
      Em meio desta grande tribulação, Jesus nos diz hoje no evangelho que ele está perto, à porta. Pede-nos estar vigilantes. Os poderes deste mundo não têm a última palavra na história. Jesus é radicalmente a salvação, a cura e a solução para o homem. Nossa atitude verdadeira é nos deixar julgar e transformar por seu evangelho.

A MENSAGEM DA PALAVRA

            O discurso escatológico de São Marcos é um dos textos mais complexos do Novo testamento. Apesar de sua escuridão, sua intenção fundamental é a de tranqüilizar a uma comunidade turvada e assustada pelos demolidores contratempos acontecidos na Judéia e Roma durante os anos 70 depois de Cristo. Do versículo primeiro ao quatro deste capítulo treze, parece que Jesus fala da ruína de Jerusalém; mas a partir do versículo vinte e quatro se refere claramente ao final dos tempos. O texto reflete uma tensão contida sobre a vinda do Filho do homem. Por um lado assegura que “não passará esta geração antes que tudo isto se cumpra”, mas por outro reconhece que “o dia e a hora ninguém o conhece”. Nos primeiros momentos a comunidade acreditava na iminência do retorno de Cristo. Mas depois esta espera fica postergada. Cristo virá, mas em um futuro incerto. Não obstante, quando o texto fica redigido, a comunidade revela grande maturidade e assume a situação com fé e esperança.
            A primeira leitura está tirada do livro do Daniel, que apesar de suas referências ao tempo do exílio em Babilônia, provavelmente foi escrito durante o levantamento Macabeu, 167-164 a.C., com o fim de reanimar aos judeus perseguidos pelo rei selêucida Antíoco IV, fortalecer sua fé e sua fidelidade à lei e alimentar sua esperança. A carta aos Hebreus recorda o fundamento da esperança: Cristo, quem com uma só oferenda, aperfeiçoou para sempre aos que vão sendo consagrados. Com Cristo a salvação é já firme e segura.

DEIXAR-NOS JULGAR PELA SUA PALAVRA

            A imagem apocalíptica do fim do mundo, e o fim do ano litúrgico, convidam-nos a nos deixar julgar pela palavra de Deus. Com a encarnação de Cristo o fim dos tempos se estabeleceu no centro da história, no suceder do tempo. Ele é a eternidade e a plenitude. Acolhendo-o como palavra e pão, vamos revestindo-nos de eternidade. Se nos deixamos transformar nele já não seremos julgados. Nossa transformação divina e eterna é gerada no tempo. Esta renovação espiritual passa por duas atitudes profundas: o reconhecimento de Deus como nosso Deus e o reconhecimento do homem como nosso irmão.
            Deveríamos deixar-nos tomar pela presença de Deus em nossa vida, dentro de nós. Mas não o deixamos. Fizemos uma imagem mental dele, mas não acabamos de nos deixar afetar pelo Deus vivo. Quando lhe falamos, seguimos falando com nós mesmos, pois não fazemos o que ele quer, mas o que nós preferimos. Buscamo-nos em Deus, mais não o buscamos a ele. Não temos os olhos abertos ao que Deus faz em nosso entorno, nas pessoas que nos rodeiam, mas só ao que nós pensamos que Deus “tem que” ser e fazer. Deus é livre para fazer o que ele quer com todos e em tudo. Nós tentamos lhe condicionar. Fazemos-lhe um Deus a nossa maneira. Pedimos-lhe coisas quando ele está desejando que lhe peçamos outras. Obrigamos-lhe a pensar com nosso pensamento e a julgar com nosso juízo. E isto é engano e obcecação. Somos frívolos, extremamente orgulhosos, não temos desenvolvimento espiritual porque ignoramos a compaixão e a misericórdia. E, sobre tudo, nos falta relacionar-nos com Deus pelo amor.
            Concebemos mal a Deus e, em conseqüência, olhamos também mal aos outros. Olhamos-lhes desde nós, não dos olhos de Cristo na cruz; desde nosso juízo e condenação, não do amor e o perdão. Centrados em nós, em nossa opinião, não sabemos descobrir os verdadeiros sinais de “sua” presença nos outros: em seu sofrimento e necessidades: “estive triste, doente, faminto, preso… e não me socorreram”. Nós temos já estabelecido o que é o bem e o mal. Damos-lhe tudo feito a Deus. Pode-nos a legalidade, nossa subjetividade, e etiquetamos para sempre às pessoas e as coisas, o que são e têm que ser. Temos o “open apagado” para a voz de Deus. Diminuímos muito as comunicações e as carícias. Praticamos o mau trato psicológico. Um menino, sem sustento, morre. A vida nos vem pelos outros. Deus quis que puséssemos em comunhão o que somos. Um adulto sem estima e afeto fica doente. Seu pensamento e seu afeto se deformam. Quando o amor falha, todo homem entra em deterioro. Nos afeta mais o mal que o bem. Sendo negativos, todos perdemos. Todos ganhamos amando. Amemos sempre na verdade e sinceridade. Preparemos o nosso coração cheio de amor a Cristo para proclamar-lo Rei o próximo domingo.
                                                                                                                           Pe Rafael Viscaíno LC

10 de novembro de 2012

Esta pobre viúva deu mais que ninguém - 32° Domingo do Tempo Comum



O evangelho de hoje tem lugar no contexto da semana da paixão de Jesus, ao dia seguinte da expulsão dos vendedores do templo e depois das tensas polêmicas com os escribas, fariseus e principais da sociedade. Jesus deixou muito claro, no referente à convivência social e ao culto, o profundo contraste existente entre os responsáveis do povo e o reino de Deus que ele deve proclamar.
Jesus e seus discípulos estão nos átrios do templo. Ali contemplam o passo dos personagens da vida social e religiosa, com seus trajes e distintivos, e as reverências e adulações que a gente lhes outorga. E vêem o aspecto de poderio e de superioridade social que estes irradiam na rua, nas sinagogas e nas reuniões sociais. Jesus critica fortemente sua ambição de procurar os assentos mais distinguidos nas sinagogas e nos banquetes. Em contraste, Jesus e seus discípulos vêem uma pobre viúva que deposita no cofre das ofertas do templo uma esmola muito pequena. Jesus a observa e diz a seus discípulos: “Asseguro-lhes que essa pobre viúva deu no cofre das ofertas mais que ninguém. Porque os outros deram do que lhes sobra, mas esta, que passa necessidade, deu tudo o que tinha para viver”. Jesus se expressa em uma íntima sintonia moral com a viúva. Nela vê um reflexo de sua mensagem e dos valores do novo reino de Deus. Sabe que onde há gratuidade radical ali está Deus, única fonte que a faz possível. Jesus mesmo é expressão humana desta absoluta gratuidade divina tanto por sua dedicação aos outros como pelo iminente acontecimento da cruz, máxima entrega gozosa e total.
A pobre viúva é como uma parábola prática e singela de como quer Deus que todos sejamos e vivamos: generosidade sem reservas. Jesus nos convida não só a dar, mas também a dar-nos a nós mesmos sempre e em tudo, e muito concretamente nas circunstâncias e dificuldades mais difíceis da existência. É certamente uma mensagem de exigência, difícil, mas muito belo.
A MENSAGEM DAS LEITURAS: As protagonistas das leituras são duas pobres viúvas situadas, como era habitual em Israel, no extremo da pobreza e necessidade. Nada poderiam dar, e menos ensinar. Mas em seu exemplo, Jesus nos vai indicar o que Deus quer que nós sejamos. No primeiro livro dos Reis vemos Elias fugindo do rei Ajab por causa de sua luta contra os seguidores dos deuses cananeus aos que a gente implorava a chuva e a fertilidade, a comida e a saúde, a vida e a fecundidade. Em sua fuga, o profeta encontra a uma viúva que tão somente tem um pouco de farinha e de azeite. Vai fazer um pãozinho para ela e seu filho com o fim de comê-los antes de morrer de fome. O profeta pede à mulher pão e água. Ela não se reserva nada e dá o que tem, o que ela necessita para não morrer. E o Senhor premia com abundância seu gesto, pois “a talha de farinha não se esvaziou, nem a azeiteira de azeite se esgotou”.
No evangelho Jesus olha para uma pobre viúva que, em contraste com os ricos que depositavam quantidade do que lhes sobrava, ela depositou no cofre das ofertas do templo uma quantidade pequena, mas que era o único tinha para viver. Jesus a põe em forte contraste com os responsáveis religiosos do povo e com os ricos. E proclama uma inaudita inversão de valores: desacredita e rechaça a aqueles a quem o povo aplaude, enquanto que enaltece à viúva, à qual o povo olha para ela como a uma desgraçada. Mas o verdadeiramente medular em toda a pregação de Jesus é a canonização da gratuidade radical, não a daqueles ricos que dão de sua abundância, mas daqueles pobres que dão de sua própria carência.

JESUS CANONIZA A GRATUIDADE RADICAL: A mensagem central de Jesus é um amor sem limites. O amor, se não for total, já não é amor. Muito facilmente degenera em vaidade e interesse. Só é autêntico aquele amor que nasce do coração. Deus é amor e todo aquele que se aproxima dele, ama necessariamente. O amor é o que nos aproxima de Deus e nos identifica com ele. Do amor puro ao amor interessado há só um passo. Jesus, no evangelho de hoje nos diz duas coisas importantes. Primeira: que não devemos tomar a Deus para servir-nos dele, com a desculpa de temos a Deus podemos ser prepotentes sobre outros. Segunda: que a força de Deus é a humildade que assombra e que jamais nos faz ser inferiores.
Ante o Deus cristão, que é o Deus da cruz, ninguém pode vangloriar-se ou abusar de qualquer classe de poder, nem cair na ostentação da vaidade. Ninguém pode converter a fé, ou a celebração em espetáculo chamativo e fascinante em seu proveito, em exaltação de dignidades, em solenidade que humilha, e, por cima de tudo, ninguém pode deslocar nem suplantar a Cristo nem a sua entrega na cruz. A cruz, como conteúdo e forma é irrenunciável. Não podemos diminuir a ninguém. Os cristãos não temos outra “sabedoria” ou “força” que “a debilidade” ou “loucura” da cruz, como diz São Paulo. Ninguém pode utilizar a consciência de puro para excluir, abater, entristecer. Ninguém pode fazer trapaças ou negócios com Deus para ganhar prestígio social e capacidade de influências lucrativas, ou para comprar bem-estar e prerrogativas, ou para lucrar graças ou vantagens temporárias e eternas à margem do amor generoso e desinteressado. Nenhum cristão, e menos os responsáveis da Igreja, tem a vênia evangélica para induzir pessoal ou comunitariamente opções sociais de desunião e de falsa exaltação, nem pode desconsiderar a força moral da unidade e da concórdia social, nem pode guardar silêncio diante das ásperas falsificações culturais e históricas de interesses de partidos que crispam, dividem, desintegram e separam.
Ante o Deus cristão só tem validez a generosidade que se dá, a solidariedade que se apropria do mal dos outros, o amor desinteressado que brota do coração mais limpo. A transcendência de Deus é sua condescendência, seu fazer-se um nada e sua humildade. Não é evangélica a lei que justifica intrinsecamente ações más, nem a razão que condena fazer o bem, nem o silêncio que ofende. Não nos faz livres com a abundância, mas com a generosidade. Não é cristão pôr preço à paz ou à reconciliação, ou encastelar-se na falsa dignidade pessoal, ou esmagar a alguém mediante a própria defesa, nem denegrir para sair justificado ou vencedor. Nenhuma vitória ou prepotência conquistou jamais o coração dos homens, e menos Deus. Evangelicamente é uma desgraça esmagar ou ter submetido a alguém.
O cristão nunca pode justificar a sua falta de generosidade, da gratuidade radical. Deve abandonar a cultura do interesse para viver aquela da generosidade. Deve preferir a humildade à ostentação, a simplicidade ao poder, a reconciliação ao ressentimento, a amizade à frieza, a companhia à solidão, a universalidade aos grupos estreitos, a concórdia à desintegração, a condescendência à intransigência, ao diálogo mais que o silêncio, a doçura mais que a agressividade, as mãos cheias às mãos vazias, a alegria à tristeza, o oferecimento generoso à chantagem do requerimento. Ser cristãos é amar ao outro não como a nós mesmos, mas, mais que a nós mesmos, conforme nos disse Jesus: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jn 15,12).
Padre Rafael Vizcaino, LC

Solenidade de Todos os Santos




A Igreja celebra hoje a festa de Todos os Santos. É muito importante que conheçamos o que é o que em realidade celebramos nesta festa, pois a santidade é o conceito chave da vida cristã. A idéia que muitos têm dos Santos, ou da santidade quando eles mesmos se situam em referência ela, põe ao descoberto os equívocos que existem em geral. Precisemos.
Santo é só Deus. Ele é toda a santidade. Deus é Perfeição e Plenitude. É Verdade e Bondade. A santidade é o ser mesmo de Deus e de seu obrar. E é também Deus no homem na medida em que o homem é consciente disso e se deixa influir e transformar por ele.
Deus é amor e seu dinamismo profundo é amar. Por isso, quando falamos dos Santos, fazemos referência explícita ou implícita à presença transformante de Deus nas almas, influindo positivamente e que se traduz no comportamento moral que se segue desta transformação.
Esta influência de Deus pode refletir-se em qualquer estado de vida quando sabemos superar os estados negativos e humanizar, harmonizar, pôr em tudo o amor de Deus por acima de todas as coisas. A festa que hoje celebra a Igreja se refere a todos os que morreram e agora estão com Deus independentemente de que tenham sido canonizados ou não oficialmente pela Igreja. A canonização dos Santos é um conceito jurídico que nos afeta mais aos que vivemos na terra, que aos que já estão com Deus. Não lhes acrescenta nada. A canonização certifica o que são. A festa de Todos os Santos se refere a nossos pais, avós, irmãos, a todos aqueles conhecidos que estão já com Deus deixando-se glorificar e divinizar por ele.
VI UMA MULTIDÃO IMENSA: As três leituras de hoje nos revelam o que hoje celebramos. O Apocalipse nos fala de “uma multidão imensa que ninguém poderia contar, de toda nação, raças, povos e línguas”. Fala de “todos os marcados, cento e quarenta e quatro mil”, número simbólico que faz referência às doze tribos do Israel, quer dizer, ampliadas na nova humanidade. “Marcados” ou “selados” são todos aqueles que pertencem a Cristo pelo Batismo. Isto faz alusão à marca de fogo que se gravava nos braços aos escravos para fazer patente ante todos a pertença a seus amos. “Quais são e de onde vieram? São os que vêm da grande tribulação” desta vida e que lavaram suas vestimentas, as coisas negativas da sua existência, no sangue de Cristo, no Batismo que nos une a Cristo na sua morte e ressurreição. Na segunda leitura, João nos fala da causa da santidade ou do manancial da mesma. É o impressionante amor que Deus nos tem e que nos faz filhos no Filho, filhos na mesma filiação do Filho, pois esse amor de Deus nos gera e nos faz semelhantes a Ele. O amor que Deus nos tem nos capacita para lhe ver e lhe conhecer tal como ele é em si, pois lhe veremos em sua mesma essência e com sua mesma Luz e assim viveremos sua vida e sua felicidade.
BEM-AVENTURADOS OS POBRES NO ESPÍRITO!: O evangelho nos fala as bem-aventuranças tal como as descreve Lucas. Diferencia-se de Mateus não só no número, mas também na mesma formulação. Mateo refere oito e Lucas quatro seguidas de quatro contrapartidas ou maldiçoes. A intenção dos dois não foi oferecer uma reportagem neutra, estritamente objetiva, nem repetir à letra as mesmas palavras de Jesus, mas adaptar à situação concreta de cada comunidade a medula da sua mensagem de validez universal. Quer dizer, descobrir o que Deus quer dizer a cada um em cada tempo e lugar. No fundo, as bem-aventuranças representam o conteúdo de toda sua pregação, de todas suas exortações e parábolas, a substância e medula de sua mensagem.
Do ensino de Jesus se deduz com claridade que a santidade, ou a bem-aventurança, não é uma realidade individual e privada, pessoal e oculta. Refere-se fundamentalmente como nos relacionamos com outros. É freqüente uma compreensão moral, espiritualista, que pouco ou nada tem que ver com a mensagem de Jesus.
As bem-aventuranças são a transparência no cristão do mesmo amor de Cristo, o exercício prático de sua filiação divina em nós. Não se limitam à observância exterior. Afetam ao mais profundo do coração. São graça e dom, antes que esforço do homem. Representam a plenitude mais positiva e radical do amor. Não se detêm na simples abstenção do mau ato externo. Nem sequer estão formuladas em forma de lei. São os parabéns efusivos de Deus que os declara já celestiais. Cristo nos libertou da lei em que estamos acostumados a nos deter quando somos legalistas. As bem-aventuranças nos fazem amantes, não só observantes. Se antes matar era matar, depois de Cristo matar é já ter maus sentimentos no coração. Se antes o adultério era adulterar, agora é olhar com maus olhos. Com Cristo a lei é amar e o pecado é não amar.
NO CORAÇÃO DAS BEM-AVENTURANÇAS: As bem-aventuranças são a riqueza da alma de Cristo, sua consciência e sentimentos, entrando no coração do homem e tomando-o por inteiro. Todas elas no fundo coincidem. Representam diversos aspectos de uma mesma realidade. Apóiam-se na absoluta primazia do dom de Deus, de sua gratuidade desconcertante. O privilégio dos pobres não é seu comportamento, nem seu esforço. É Deus e sua intervenção. Deus está com eles. Não são virtudes do homem, mas os efeitos e resultados do dom de Deus. São o amor de Cristo manifestado na cruz. O mais ditoso que pôde ocorrer em nossa vida é que Deus morreu por amor na cruz por nós. As bem-aventuranças, como a cruz, são o amor com o qual Deus nos ama, esse amor depositado em nós. Uma idéia exata das bem-aventuranças nos dá o fato de ver como reagimos na dificuldade, nas privações, nos rechaços, insultos e sofrimentos.
Pobres, aqueles que choram e têm fome e sede de justiça. Misericordiosos são aqueles em quem pesa mais a alegria pelo amor de Deus que a tristeza diante das ofensas dos homens. São os que não conhecem o ressentimento nem o rancor; os que nunca diminuem o afeto e as carícias, os que não julgam, nem culpam, nem condenam, os que não irradiam medo e temor; os que não se evadem ou se isolam no silêncio agressivo, ou se colocam à defensiva na distância; os que não se enredam no auto-engano do orgulho, na consciência de puros, na falsa pretensão de ter sempre a razão, os que não são vulneráveis à rivalidade, ao aborrecimento, à intransigência e mau humor, à ironia ou rigidez de princípios, à dureza e suscetibilidade, à agressividade e pobreza afetiva.
Bem-aventurados são aqueles que acreditam que há um mundo que mudar e não uma vida que viver. Os que valorizam mais a relação que a possessão. Os que vivem o júbilo de cada dia. Os que enchem o coração de amor antes que de possessões e contas correntes. Os que optam por amar e não por ser ricos. Os que não se encolhem de tristeza, nem se escondem no isolamento. Os que praticam a solidariedade ou o apostolado e trabalham por um mundo cheio de Deus. Os que cumprem o que é conselho e não só o mandado, o espírito e não só a letra. Os que olham mais no que lhes une que no que lhes separa. Os que perdoam, os que se reconciliam e olham sempre para frente. Os que constroem pontes e não vivem nas trincheiras do seu egoísmo. Os que sempre amam. No próximo ano voltaremos a celebrar a festividade de Todos os Santos.  E termino fazendo uma pergunta: Estaremos nós entre eles?

Pe. Rafael Vizcaino, LC