Evangelho: S. Mateus 4, 1-11
Há muitas batalhas
dentro de nós: a carne contra o espírito, o espírito contra a carne. Se, na
luta, são os desejos da carne que prevalecem, o espírito será vergonhosamente
rebaixado de sua dignidade própria e isto será uma grande infelicidade, de rei
que deveria ser, torna-se escravo.
Se, ao contrário, o espírito se submete ao
seu Senhor, põe sua alegria naquilo que vem do céu, despreza os atrativos das
volúpias terrestres e impede o pecado de reinar sobre o seu corpo mortal, a
razão manterá o cetro que lhe é devido de pleno direito, nenhuma ilusão dos
maus espíritos poderá derrubar seus muros; porque o homem só tem paz verdadeira
e a verdadeira liberdade quando a carne é regida pelo espírito, seu juiz, e o
espírito governado por Deus, seu mestre. É, sem dúvida, uma preparação que deve
ser feita em todos os tempos: impedir, por uma vigilância constante, a
aproximação dos espertíssimos inimigos. Mas é preciso aperfeiçoar essa
vigilância com ainda mais cuidado, e organizá-la com maior zelo, nesta época do
ano, quando nossos pérfidos inimigos redobram também a astúcia de suas
manobras. Eles sabem muito bem que esses são os dias da santa Quaresma e que passamos
a Quaresma castigando todas as molezas, apagando todas as negligências do
passado; usam então de todo o poder de sua malícia para induzir em alguma
impureza aqueles que querem celebrar a santa Páscoa do Senhor; mudar para
ocasião de pecado o que deveria ser uma fonte de perdão.
Meus caros irmãos,
entramos na Quaresma, isto é, em uma fidelidade maior ao serviço do Senhor. É
como se entrássemos em um combate de santidade. Então preparemos nossas almas
para o combate das tentações e saibamos que quanto mais zelosos formos por
nossa salvação, mais violentamente seremos atacados por nossos adversários. Mas
aquele que habita em nós é mais forte do que aquele que está contra nós. Nossa
força vem d’Aquele em quem pomos nossa confiança. Pois se o Senhor se deixou
tentar pelo tentador foi para que tivéssemos, com a força de seu socorro, o
ensinamento de seu exemplo. Acabaste de ouvi-lo. Ele venceu seu adversário com
as palavras da lei, não pelo poder de sua força: a honra devida a sua
humanidade será maior, maior também a punição de seu adversário se Ele triunfa
sobre o inimigo do gênero humano não como Deus, mas como homem. Assim, Ele
combateu para que combatêssemos como Ele; Ele venceu para que também nós
vencêssemos da mesma forma. Pois, meus caríssimos irmãos, não há atos de
virtude sem a experiência das tentações, a fé sem a provação, o combate sem um
inimigo, a vitória sem uma batalha. A vida se passa no meio das emboscadas, no
meio dos combates. Se não quisermos ser surpreendidos, é preciso vigiar; se quisermos
vencer, é preciso lutar. Eis porque Salomão, que era sábio, diz: Meu filho,
quando entras para o serviço do Senhor, prepara a tua alma para a tentação
(Eclo. 2,1). Cheio da sabedoria de Deus, sabia que não há fervor sem combate
laborioso; prevendo o perigo desses combates, anunciou-os de antemão para que,
advertidos dos ataques do tentador, estivéssemos preparados para aparar seus
golpes.
São Leão Magno
Fonte: didascalion.tk
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